Um olhar sobre o passado para entender o presente e, quem sabe,
pressentir o futuro. Esse tema inspirou o trabalho das turmas de Ensino
Fundamental do Colégio da Companhia Santa Teresa de Jesus, no Rio de
Janeiro, durante 2003. Nas aulas de Artes e de Informática Educativa, a
idéia levou classes de 3ª e 4ª séries a unir tecnologia e criatividade
para produzir curtas-metragens que tinham como cenário a cidade e a
escola do passado. A iniciativa partiu da professora nota 10 Mônica
Bezerra de Almeida Lopes, de Artes, e de sua parceira de projeto Regina
Lúcia Faig Torres Pinto da Rocha, de Informática, professora nota 10 em
2001. No tema do semestre as duas acharam o terreno ideal para trabalhar
as linguagens do audiovisual e da animação por computador. A dupla
desenvolveu na garotada a sensibilidade do olhar e a capacidade de
articular informações visuais, textuais e sonoras, com auxílio de
ferramentas tecnológicas. As atividades se iniciaram com a observação e a
"leitura" de imagens do Rio de Janeiro capturadas pelo fotógrafo
Augusto Malta no início do século passado, e do colégio, na época de sua
fundação, há mais de 80 anos.
Utilizando um software de apresentação e outro de animação gráfica, as
turmas produziram sobre essas imagens mais de 70 curtas-metragens, no
estilo do cinema mudo.
Para encerrar o projeto, o material foi exibido no auditório da escola
para estudantes, pais e convidados. A seguir a seqüência de atividades
realizadas pelas professoras Mônica e Regina e seus alunos.
Plano de Aula
Tecnologia como ferramenta de criação
Objetivos
Construir, em dupla, um curta-metragem. Para cumprir essa meta, os
estudantes realizaram várias atividades com diferentes objetivos. Na
seleção de imagens e sons, o grupo interpretou e articulou informações.
Ao roteirizar os curtas e, em seguida, produzi-los, organizou estruturas
visuais, textuais e sonoras. Também aplicou a língua escrita de forma
apropriada ao estilo do cinema mudo. Enquanto expunha suas idéias ao
colega de dupla e negociava com ele, cada criança exercitou o poder de
argumentação. Ao mesmo tempo, aprendeu a elaborar e a receber críticas.
As atividades exploraram em Artes conceitos como figura e fundo, forma,
cor, ritmo, movimento, proporção, perspectiva, ponto, linha, textura e
leitura de imagem; em Informática foram trabalhados conteúdos como
decodificação de ícones e manuseio de ferramentas nos programas
PowerPoint e Kidpix.
O tempo assume várias formas no cinema. O período de exibição, a época
em que se passa o enredo, a velocidade acelerada na qual os fotogramas
se sucedem, enganando nossa visão e simulando o movimento. Há o tempo da
própria história do cinema, que no início do século passado encantou as
platéias com o filme mudo. Inspiradas por essa temática, Mônica e
Regina estudaram o Rio antigo unindo a arte cinematográfica a imagens
históricas. Assim, mostraram como a tecnologia pode contribuir na
criação artística.
Na leitura de imagens, a mostra de uma evolução
Na primeira etapa do projeto foram apresentadas fotos do Rio de Janeiro
do início do século passado, obtidas no site www.almacarioca.com.br.
Para exibi-las, Mônica utilizou um equipamento antigo, preservado pela
escola: o episcópio. A ambientação provocada pelo uso desse instrumento,
um precursor do retroprojetor, ajudou a transportar todos para o
período relatado. "Procuramos sensibilizar o olhar das crianças,
levando-as a observar as transformações na moda, na arquitetura, nos
transportes, nos costumes e nos eventos escolares mostrados nas fotos
pertencentes ao acervo do colégio", comenta Mônica. As imagens foram
impressas e dispostas nas paredes da sala de Artes. Na aula seguinte,
cada aluno foi convidado a escolher uma delas e reproduzi-la numa folha
de papel usando apenas lápis preto. "O exercício leva à percepção da
perspectiva, das formas e dos contrastes das imagens em preto-e-branco."
No Laboratório de Informática, Regina organizou uma sessão de cinema
uma projeção com datashow de um arquivo de vídeo digitalizado da fita A
Cura, de Charles Chaplin (ao lado). "Selecionamos esse filme para
mostrar a estética do curta-metragem e do cinema mudo", conta Regina.
Após a exibição, todos discutiram as características do que viram. Em
seguida as professoras apresentaram um curta-metragem produzido por elas
no computador e expuseram ao grupo a idéia do projeto: a produção de
filmes em dupla.
Autonomia com o micro
As fotos vistas na primeira etapa foram arquivadas nos computadores.
Cada dupla escolheu uma como cenário da animação. Para operar os micros,
Regina criou roteiros explicativos. "Nossa intenção foi estimular a
autonomia. Por isso eu apenas orientava o trabalho, passando de dupla em
dupla", comenta. Quando alguém tinha dificuldade, Regina pedia, antes
de resolver o problema, que tentasse seguir o roteiro.
Hora de criar o enredo
Criadas e avaliadas as histórias, Mônica e Regina levantaram com cada
dupla como transformar o que foi escrito em linguagem audiovisual.
"Observamos a pertinência das idéias e a lógica dos acontecimentos e a
organização textual", explica Mônica. As histórias não podiam ser muito
longas e precisavam ter começo, meio e fim. Além disso, a animação dos
personagens e das situações descritas tinha que combinar com a imagem
escolhida como fundo.
Como produzir o roteiro
Antes de passar à fase de produção no computador, Mônica e Regina
distribuíram à classe planilhas com quadros em branco acompanhados de
pautas de texto, para que fosse produzido um roteiro da animação, o
chamado storyboard. Neles os alunos fizeram croquis de cada imagem a ser
montada no computador, descrevendo ao lado o trecho da narração a que
se referia. Também bolaram textos explicativos típicos do cinema mudo.
"Nessa etapa, os estudantes conseguiram identificar situações
impossíveis de animar e problemas de continuidade", relata Mônica.
A aplicação dos softwares de animação
Feitos e revisados os storyboards, Regina apresentou os programas
PowerPoint e Kidpix. Sempre seguindo roteiros preparados pela
professora, no primeiro software os estudantes produziram os slides da
apresentação, digitaram os textos de continuidade e animaram as
situações. No segundo, criaram os personagens, reproduzindo-os nas
diversas posições que cada história solicitava. "As crianças descobriram
como usar comandos típicos da computação, como abrir, importar e salvar
arquivos, selecionar figuras e utilizar teclas de atalho, como o
Alt-Tab, para navegar entre os programas", relata Regina.
Personagens ganham movimento

A etapa da animação foi a de maiores descobertas, inclusive para Regina
(ao lado). Uma série de desafios da computação gráfica precisou ser
superada. Como fazer um personagem se esconder atrás de um móvel?
De que maneira dar a impressão de que ele está se movimentando em
perspectiva? Qual a melhor forma de caracterizá-lo para dar idéia de que
se virou de costas?
Finalização dos filmes, monitoria e crítica
Até aqui o som das aulas de Mônica e Regina era o da conversa da turma,
agitada com as descobertas. Prontas as animações, o grupo entrou numa
das mais divertidas fases do projeto, o da seleção de sons e músicas
para sonorizar os filmes. Humor, tensão, drama... A importância da
trilha sonora foi amplamente absorvida pelo grupo, que fez escolhas
bastante adequadas aos roteiros.
Conforme os grupos foram finalizando seus filmes, as educadoras
iniciaram um trabalho de monitoria entre os próprios alunos. "Os que
terminaram antes passaram a auxiliar os colegas que ainda tinham etapas a
cumprir", conta Mônica.
A interação do grupo aumentou bastante nesse momento. "Foi interessante
observar como os monitores repetiam com os colegas a nossa postura como
professoras", lembra-se Regina. Quando todos os grupos terminaram seus
curtas, teve início a preparação da última etapa do projeto.
Na internet, em sites previamente selecionados pelas professoras, o
grupo fez uma pesquisa sobre produção e crítica cinematográficas.
"Preparamos uma ficha e pedimos a cada dupla que trocasse de computador
com os vizinhos, para que realizasse a avaliação dos trabalhos", relata
Regina.
Nessas fichas havia perguntas sobre a história criada, a coerência das
imagens utilizadas e de sons e animações. Em alguns casos, os "críticos"
convenceram seus colegas a fazer alguns ajustes no produto final.
Pré-estréia e CD-ROM
No final do semestre, Mônica e Regina organizaram no auditório da escola
a pré-estréia dos curtas-metragens. Cada dupla ficou responsável por
operar o equipamento e exibir sua produção. Depois o material foi
enviado a uma produtora, para a elaboração de um CD-ROM com todos os
filmes. No início do segundo semestre, o lançamento do CD-ROM trouxe
pais e convidados, que se emocionaram com as produções.
Avaliação contínua
As professoras avaliaram os alunos com relação a participação, produção
textual, construção de imagem, manipulação das ferramentas e
organização. Também analisaram a evolução do trabalho em duplas.
Observaram as que tiveram dificuldades no início mas conseguiram
superá-las; as que tinham dificuldade com a informática e que passaram a
dominar as ferramentas; e aquelas em que havia um membro mais dominador
que o outro, mas que acabou por compreender a dinâmica do trabalho em
grupo. Ao final de cada aula, Mônica e Regina faziam auto-avaliações,
abordando aspectos positivos e negativos das próprias atuações.